Loulé por Charles Bonnet

6 de Fevereiro de 2013

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Olá caros visitantes do “Marafações de uma Louletana”.

Charles Bonnet, engenheiro francês, foi o que se pode chamar um pioneiro na investigação geológica do Algarve e do Alentejo. Decidi escrever sobre Bonnet e sobre a obra que nos legou dada a ligação do mesmo às terras louletanas. Mas comecemos pelo início: quem foi Charles Bonnet?

Charles Jean Baptiste Bonnet nasceu em 1816 na localidade de Vesoul, Haut- Saône, França. Estudou no país natal, concluindo a formatura em Engenharia Civil na especialidade de Geologia e mineralogia. Desconhece-se a data que emigrou para Portugal, mas José Carlos Vilhena Mesquita considera que terá sido entre 1844 e 1846, sendo que neste último ano se encontrava no Algarve a estudar a composição geomorfológica de uma mina de cobre. Radicou-se em Lisboa e posteriormente em Loulé. Em 1847, fez a sua segunda viagem ao Algarve, desta feita para percorrer toda a região, desenvolvendo diversas observações de carácter topográfico, geográfico e geológico. Desta estadia resultou a obra “Memória sobre o Reino do Algarve: Descrição Geográfica e Geológica” (1850) que lhe valeu a eleição para sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa, para presidente da Comissão Geológica de Portugal e para a comenda de Cavaleiro da Ordem de Cristo. Em 1849 o governo chefiado pelo Duque de Saldanha aprovou a concessão de um subsídio de 4 contos de réis, sendo 3 destinados à exploração geológica e mineralógica do Reino e 1 para a constituição dum herbário da flora portuguesa. Apaixonado pelo Algarve e no cumprimento destas missões que lhe foram confiadas em 1849, Charles Bonnet escolheu a vila de Loulé para nela fixar residência e iniciar os seus trabalhos de aclimatização botânica. Permaneceu na vila de Loulé até altura da sua morte em 1867. 

A obra de Bonnet divide-se em duas partes distintas: a primeira trata exclusivamente da geografia física e topográfica e compõem-se de sete capítulos; a segunda parte é inteiramente dedicada ao estudo geológico e mineralógico da província. Longe de se tratar de uma obra maçuda e exaustiva, é antes de mais um “tratado” que nos permite, além dos aspectos geológicos e geográficos, conhecer os usos e costumes do povo algarvio.

Mas como eu escrevi anteriormente, de entre todo o Algarve que percorreu, Bonnet escolheu Loulé para viver e aí criar um herbário da flora portuguesa, a que muitos louletanos chamaram durante anos “Jardim do Boné”. Na sua obra Bonnet descreve Loulé como sendo “a vila do Algarve mais agradável e onde melhor se pode residir. […] A vegetação é ali extremamente bela, com frutos de toda a espécie, deliciosos e abundantes. O clima é temperado, a água é muito boa e em quantidade, sendo o comércio desta pequena vila bastante considerável.”. Assim sendo, Bonnet, ao contrário de outros estrangeiros que por cá passaram no século XIX, tece rasgados elogios às terras louletanas, sendo que seguidamente inúmera também as qualidades de outras localidades pertencentes ao Concelho como Alte, Ameixial, Salir e Querença.

Interessantes são também as observações de carácter etnográfico. Referindo-se à indústria, comércio, usos e costumes, Bonnet escreve “Em Loulé, Lagoa e Moncarapacho, fabrica-se com argilas ordinárias umas louças grosseiras, principalmente vasilhas a que dão o nome de Cântaro, que utilizam para conservar a água. […] Nas montanhas calcárias vimos muitos fornos de cal, principalmente nas cercanias de Budens, Barão de S. Miguel, Bensafrim, Odiáxere, Alte, Tavira e S. Estêvão. A maior indústria do Algarve consiste na fabricação de obras feitas com palmeira anã e o esparto. Os diferentes objectos são fabricados pelas mulheres, que fazem ainda pequenas obras com a piteira, e se ocupam igualmente na fabricação de rendas muito bonitas, mas geralmente de algodão, que servem para uso doméstico.” 

Depois da morte de Charles Bonnet e com o passar dos anos, infelizmente, o “Jardim Bonnet” foi se degradando até à sua extinção.

Hoje em dia o nome de Charles Bonnet faz parte da toponímia de Loulé designando uma travessa construída na década de quarenta do século XX, na sequência da edificação da cadeia da comarca. O nome de Charles Bonnet foi atribuído a esta travessa dada a sua proximidade com a antiga residência do mesmo, nomeadamente na então Rua Nova de Quarteira, actual Rua Gil Vicente.

 

 

Nota:

1. Ainformação aqui apresentada baseia-se no estudo introdutório de José Carlos Vilhena Mesquita sobre a obra de Charles Bonnet; na obra “Memória sobre o Reino do Algarve: Descrição geográfica e Geológica” do próprio Bonnet e na obra “Dicionário toponímico: cidade de Loulé” de Jorge Filipe Maria da Palma.

 

 

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