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Olá caros visitantes do “Marafações de uma Louletana”.

Já aqui escrevi sobre Pedro de Freitas, nomeadamente num post datado de 29 de Abril de 2011, sobre o seu bairrismo, a sua dedicação a Loulé e aos louletanos. Entretanto, vasculhando o espólio que gentilmente doou à Câmara Municipal de Loulé encontrei um livrinho intitulado “1.ª Série: Os meus artigos e alguns extras 1917 a 1964”, livrinho esse constituído por recortes de jornais minuciosamente datados e anotados. Entre os muitos artigos que compõem o referido livro, seleccionei um que achei assaz interessante e que se intitula precisamente “Loulé e os Louletanos”. O mesmo artigo, que transcreverei de seguida, foi publicado originalmente no jornal “O Algarve”, n.º 1993, de 9 de Junho de 1946:

“Loulé é aquela terra de pergaminhos que velhíssimos alfarrábios dizem que antes da era de Cristo se considerava importante.

Sua fama girando na boca de sucessivas gerações e através de todos os séculos, hoje é bem aquela grandiosa vila de que todos os algarvios falam e enaltecem. E nem só os de “casa”; muitos são os estranhos que igualmente lhe rendem encómios.

Fala-se de si em todos os tons e modalidades: tradicionais, artísticas, progressivas, activas, dinâmicas, populares, políticas, festivas, humanitárias, assistência social e, por excelência — bairristas.

Na tradição encontram-se os belos entretimentos das Mouras encantadas e os célebres contos populares; na artística — a sua apaixonada Música e profissões liberais; na política — a antiga mola reguladora da política algarvia, activa popular e festiva — as manifestações de iniciativas postas à prova a todo o momento, o progresso que a vila apresenta, as suas festas que têem fama — mormente as da Mãe Soberana e Carnaval — e; no campo de humanidade e assistência: o modelar serviço hospitalar, raios X e albergue de velhos abandonados de fortuna e de família — são o melhor e mais glorioso atestado da grande divisa social que Loulé apresenta a quem se digne visitá-lo.

Caminha a nobre vila na senda de tudo que seja civilização. Seus filhos, muitos e dispersos por vários pensamentos e actuação, são todavia unidos no que a terra – Mai lhes exige para o bem comum.

A vultos da vida nacional já tenho ouvido: “Loulé é de todas as terras do País a mais bairrista. O seu progresso é obra dos seus filhos. O Louletano, na defesa da sua terra, não é político, nem religioso: é um por todos e todos por um…”

É consolador registar estas frases porque em realidade é assim mesmo.

Ainda há pouco, numa manifestação peticionária que Loulé levou a efeito junto dos altos dirigentes da Nação, não houve más vontades, dificuldades de ocasião, afazeres deste ou daquele; a trombeta louletana tocou a unir, e foi extraordinariamente agradável ao coração de todos constatar-se a variedade de cotações culturais e sociais que á roda do mesmo pendão se uniram e cerraram fileiras na sagrada defesa de Loulé. E em qualidade e quantidade encheu-se gabinete ministerial, e todos souberam fechar bem á chave no mais recôndito da sua alma as suas ideologias, políticas e religiões.

É bem como alguém já disse: — “os de Loulé são assim”.

O Louletano é activo, dinâmico, facilmente explosivo, falador, empreendedor, atrevido, acolhedor, hospitaleiro, caritativo, católico e sentimentalista.

Adora a sua terra; a sua Padroeira — N. S. da Piedade — é a imagem que desde o berço até à cova lhe anda sempre na visão e no pensamento, tanto mais nos momentos mais difíceis da vida. O seu Hospital é o seu maior orgulho. As festas da terra são praticamente a ornamentação da sua sala de visitas para sempre receber [?]namente e de braços abertos as visitas dos forasteiros.

É por excelência emigrante. Mas lá longe, na difícil luta pela vida, não esquece a terra e, toda a sua maior ambição e felicidade, é arranjar um “pé-de-meia” para comprar no seu sitio uma casinha, umas figueiras e amendoeiras, e mesmo uma geira de terra; todo um arranjinho enfim para se manter na velhice e morrer onde nasceu.

Gosta de petiscos, dá o cavaquinho pelos bailes domingueiros, descamisadas, pesca, serenatas e tem predilecção pelos passeios ao Rosal, Rio de Lebre, Cadoiço, Fonte da Pipa, Gonçinha, Campina, e mais atraentes arredores de que a vila é privilegiada.

No seu folclore é acérrimo defensor da “Ti-Anica de Loulé” e hábil no mando do clássico baile-de-roda.

Também tem a mania da grandeza. Desde a terra à menor partícula da sua actividade, muito gosta da evidência.

Para ele, nada há melhor do que tudo que seja louletano: — é aqui que reside o micróbio do seu acrisolado bairrismo.

Admira e gosta de falar em nomes de grande destaque. E assim, na multiplicação destes hábitos e através de gerações, há famílias de nomes chorudos, e indivíduos de pomposas alcunhas.

De toda esta cena louletana de nomes e alcunhas, há o espírito explorativo que gira à roda de determinado forasteiro.

Chegara de comboio. Da estação para a vila utilizara o automóvel. Engraxou os sapatos, barbeou-se, hospedou-se, e… por desfastiu, aplicou seus ócios num belo passa-tempo antes de se deitar.

E depois de ter passado todo o ecram louletano, ao cabo do passeio fez risonhamente o seguinte apanhado: “O meu automóvel guiou-o “Afonso Costa”… o “General” engraxou-me os sapatos… o “Ministro” fez-me a barba; hospedei-me na “Pensão Conde” e passei o serão com a “Rainha”… Que grande gente tem Loulé…”

 

Passadas várias décadas sobre este texto, posso atestar que o Carnaval e as festas em Honra da Nossa Senhora da Piedade continuam a atrair a Loulé milhares de forasteiros. Quanto ao carácter dos louletanos seria muito suspeito que eu tecesse considerações sobre o mesmo já que também eu sou louletana e marafada de gema. No entanto, uma certeza trago sempre no coração: Loulé é a mais linda terra do Mundo, pelo menos para nós, ilustres louletanos.

 

Nota:

1. Foto retirada do blog www.louletania.com 

 

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