As Marchas Populares de Quarteira

3 de Agosto de 2016

pardal11

Herdeira de costumes ancestrais relacionados com a celebração do Solstício de verão pelos povos pagãos, posteriormente adotados e reinterpretados pelo Cristianismo, Quarteira foi, desde o século XIX, um dos destinos mais procurados para o tradicional “banho santo” ou “banho de S. João”. Assim, no dia 24 de junho, data do nascimento de São João Batista, muitas pessoas, vindas das diversas freguesias louletanas, sobretudo das mais rurais, rumavam a Quarteira para pernoitar nas suas praias e obter a purificação e a prosperidade que, exclusivamente nessa noite, se acreditava que a água do mar podia oferecer. Numa época em que grande parte da população dependia da agricultura e da pecuária para subsistir, era comum banhar também os animais, para que estes se mantivessem sãos e prósperos.

 

O levantamento do mastro era outro dos elementos que tinha origem na época pré-cristã. Também este aspeto foi adotado pelo cristianismo que manteve o levantamento dos mastros nos quais eram colocadas bandeiras alusivas aos santos. Assim, pouco a pouco, as festas em honra de S. João foram crescendo, sobretudo na sua dimensão mais popular e, tanto a Igreja, como o povo, foram elegendo outros santos para a sua devoção. Estes Santos foram considerados populares e os lugares de eleição escolhidos para homenageá-los eram os arraiais, festas ao ar livre, organizadas pelos bairros mais tradicionais, onde se comia, bebia e se bailava. Em Quarteira, estes festejos eram levados a cabo pelos grupos das fábricas de conserva da CUF, dos quais se destacava o grupo etnográfico designado “Grupo das Latas Furadas”, responsável pelos bailes de mastros mais concorridos.

 

Até à década de 70 do século XX eram assim celebrados os Santos Populares em Quarteira. Por esta altura, a vida cultural quarteirense girava em torno da Casa dos Pescadores, sediada onde atualmente se encontra o Centro Autárquico, na rua Vasco da Gama. Era na Casa dos Pescadores que se ensinava aos jovens diversos ofícios, se faziam récitas, se ensaiava o Rancho Folclórico, entre outras atividades. Os finais dos anos 60 são também marcados pela chegada a Quarteira do novo pároco, o Padre Elísio Dias, que enquanto seminarista, conviveu com uma outra forma de celebrar os Santos Populares, as chamadas Marchas Populares, surgidas em Lisboa no ano de 1932. Desde logo, o novo pároco se interessou pelas diversas atividades desenvolvidas na Casa dos Pescadores e foi neste espaço, junto da juventude que o frequentava, que fomentou a ideia da criação de uma marcha popular à semelhança do que havia visto na capital. Adeptos dos arraiais e dos bailes na Esplanada, os quarteirenses receberam com agrado a proposta do Padre Elísio e, neste contexto, surge a primeira marcha popular de Quarteira em 1970. Esta marcha era composta por cerca de quarenta pares e desde logo os trajes estiveram relacionados com o mar e com a pesca. O desfile teve lugar na noite de S. João e partiu da Taberna D’El-Rei, culminando na Esplanada de Turismo de Quarteira, atual Praça do Mar, na Av. Infante Sagres. Desta marcha resultaram uma série de casamentos e, embora se passassem quase vinte anos sem uma nova iniciativa deste género, o gosto pelas marchas populares ficou no sangue das gentes de Quarteira.

 

Adormecida desde 1970, a ideia de organizar uma marcha popular em Quarteira foi recuperada pela Associação para o Desenvolvimento Económico e Cultural de Quarteira (A.D.E.C.Q.), fundada em 1988. Assim, sob a liderança de Leonel de Sousa, esta associação foi responsável pela organização de uma marcha que, entre 1988 e 1991, abrilhantou os Santos Populares em Quarteira. A marcha popular, toda a sua dimensão etnográfica, bairrista e teatral, é então adotada pelos quarteirenses que reconhecem na mesma uma forma de expressar as vivências coletivas da comunidade, as suas tradições e heranças culturais dentro de uma rivalidade saudável. Neste ponto de viragem, e se durante algum tempo a marcha da A.D.E.C.Q. foi a única a desfilar, a partir de 1992 surgem outras marchas que representam as ruas da cidade, localidades ou temáticas relacionadas com a freguesia. Neste contexto, em 1993 apresentam-se onze marchas e, à semelhança do que seria feito durante alguns anos, os quarteirenses contaram com a participação de uma marcha convidada vinda de Lisboa, nomeadamente a de Marvila. As Marchas da Checul, das Florinhas de Quarteira, da Rua da Alegria, 1.ºde Maio, da Rua da Cabine, da Rua Gago Coutinho, da Rua do Outeiro, da Rua Vasco da Gama e a Onda Jovem destacam-se pelo seu pioneirismo na história das marchas populares de Quarteira. Estas marchas, durante alguns anos, foram apresentadas no campo de futebol a 10 de junho e o seu percurso partia da zona do Mercado indo até ao Jazz Bar, atual Pastelaria “Pão do Povo”. Muitos foram aqueles que contribuíram para que o número de marchas proliferasse em Quarteira, de entre os quais: José Encarnação, Isidoro Correia, Vítor Faria, Virgulino Café, Ezequiel Tomás, Tó Maria, Alexandre Madureira, Leonor Emídio, Felisbela Rilhó, Arcelina Rocha, Ana Maria Cavaco, Esmeralda Brito, entre outros.

 

Na década de 90, a dedicação dos quarteirenses às Marchas Populares aumenta gradualmente. As marchas participantes crescem em número e em brilhantismo, sempre procurando apresentar mais e melhor. Neste contexto, surge, em 1995, a APROMAR, Associação Promotora das Marchas Populares, que passa a ser o organizador oficial deste evento. Neste mesmo ano, a transmissão do desfile das Marchas Populares, na noite de 12 de junho, pela RTP1, será um momento crucial na afirmação e difusão das marchas populares de Quarteira enquanto espetáculo grandioso, cartaz etnográfico e turístico e importante manifestação da cultura popular.

 

A maior projeção das Marchas Populares de Quarteira estimulou ainda mais a criatividade dos seus participantes e, de ano para ano, são notórias as melhorias e a preocupação em acompanhar as tendências sem, no entanto, descurar o caráter tradicional e etnográfico desta iniciativa. Assim, as Marchas Populares de Quarteira mantêm a sua originalidade e distinguem-se das suas congéneres em diversos aspectos, tais como: desfilarem por altura dos três Santos Populares (Santo António, São Pedro e São João) e reunirem numa mesma Marcha elementos com idades compreendidas entre os 5 e os 60 anos procurando aliar a experiência à juventude e assim garantir o futuro desta tradição. Para além disso, nas Marchas Populares de Quarteira não há vencedores, nem vencidos, todos dão o seu melhor procurando aquela que é a melhor das gratificações: o entusiasmo do público. Há sim uma rivalidade, mas é uma rivalidade saudável que faz com as marchas resistam, mais ou menos populares, com maior ou menor sofisticação, mas com o espírito de despique bairrista intacto.

Na atualidade as Marchas Populares têm lugar ao longo da Avenida Infante Sagres, popularmente designada Calçadão, por ocasião do Santos Populares. Nos últimos anos o número de marchas participantes oscila entre sete e oito. Algumas das marchas surgidas em 1992, ou nos anos imediatamente a seguir, foram desaparecendo ou diluindo-se em novas marchas. Por outro lado, outras marchas foram aparecendo, como é o caso da marcha da Fundação António Aleixo, que começou a participar nas Marchas Populares em 2003, ou da Marcha de Vilamoura fundada em 2007.

 

Em suma, nos dias de hoje as Marchas Populares de Quarteira deslumbram tanto quarteirenses, como aqueles que vêm de fora. As gentes de Quarteira são atraídas pelo desejo de reviver o passado e, nesse sentido, têm nas suas Marchas Populares um elemento de coesão social. Por outro lado, os de fora, movidos pela curiosidade de conhecerem os costumes locais, demoram-se por Quarteira e contribuem, dessa forma, para o seu desenvolvimento económico e para publicitar o seu nome enquanto capital dos Santos Populares do Algarve.

 

 

Nota:

1. Artigo da minha autoria em parceria com a minha colega e amiga Helga Serôdio retirado da Revista Raízes n.º 4 (2016). Quem estiver interessado pode consultar a revista online através do link: http://bit.ly/1XC9PCn  

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