O presépio tradicional algarvio

14 de Dezembro de 2011

presépio***

Bom dia caros visitantes do “Marafações de uma Louletana”.

Já pode ser visto, até o dia 6 de Janeiro de 2012, na cozinha tradicional situada na alcaidaria do castelo de Loulé, o presépio tradicional algarvio.  Este presépio em nada se assemelha com os que estamos habituados a ver e que recriam aquilo que terá sido o nascimento de Jesus numa gruta em Belém. Então se assim é, em que consiste este presépio tipicamente algarvio? 

No século XIX, no barrocal algarvio, nove dias antes do Natal, preparava-se a casa para armar o presépio ou armar o Menino, em cima da cómoda que estava em frente da porta da casa de fora. No chão, à frente, ficava uma esteira de empreita, muitas vezes com motivos geométricos polícromos. A cómoda era revestida com uma toalha branca e com larga renda pendente. Em cima, colocava-se um pequeno trono em escadaria, também conhecido por altarinhoescadariapenha ou charola, que imitava o altar-mor da igreja. À medida que se elevava, os degraus eram mais estreitos. Outras vezes, colocavam-se as medidas de cereal, em escadaria, para se formar o trono. Este era coberto com um lençol ou toalhas de linho, com uma dobra de lençol de lindas rendas, com panos bordados pela dona da casa ou pelas filhas solteiras, onde abundavam motivos de cor azul e encarnada.

Construído o trono, começava-se por ornar o Menino. As searinhas, germinadas dentro de chávenas ou pires pequenos, eram colocadas, no trono, com arte.

O trono era ladeado de jarras com verdura, onde sobressaía a murta, o loureiro, o alecrim, a aroeira e a nespereira. Nas paredes da sala, onde estava armado o Menino, colocavam-se também ramos de laranjeira, com laranjas, de loureiro ou ainda de nespereira. Outras famílias faziam um arco de verdura, à frente do trono.

Finalmente, colocava-se o Menino, feito pelo pinta-santos. O vestidinho fora já cuidadosamente lavado e passado a ferro. Outras vezes, vestia-se o Menino de novo. Este era o encanto das crianças, que não se cansavam de olhar para Ele, apesar do seu aspecto não invocar grande piedade, pois fora feito por um vulgar artesão. A mãe preparava uma lamparina (copo com azeite e pavio com fios de linho) e colocava-a em cima de um pratinho, à frente do Menino.

Uma característica, muito peculiar do Barrocal, é ornamentar o trono com laranjas. Ao lado do presépio colocam-se também cachos de laranjas dependurados na parede. Na zona marítima de Olhão, nas primeiras décadas do século XX, as searinhas estavam dentro das latas de conserva de sardinha.

A presença das searinhas no presépio é compreendida pelo povo como uma bênção. São colocadas para o Menino “as abençoar” e para “dar muito pão às sementeiras”. Depois das festas, havia também o costume de colocar as searinhas no campo para crescerem porque estavam abençoadas. Mais tarde, o trigo recolhido era para mezinhas caseiras.

Para ornar o presépio e torná-lo mais vistoso, para além do trigo, introduziam-se outras espécies de sementes – aveia, cevada, lentilhas, alpista, tremoços, etc. – que são semeadas no dia 8 de Dezembro, festa de Nossa Senhora da Conceição. No concelho de Tavira, também se semeiam ervilhacas e grão de bico, no dia 1 de Dezembro, a fim de haver tempo suficiente para a germinação.

No Barrocal, as laranjas, colocadas no presépio, não eram apenas para ornamento. Possuir laranjas era sinal de distinção. Quando um afilhado ou pessoa amiga fazia uma visita na quadra natalícia, dava-se uma laranja que estava no presépio. Se vinha o médico ou o prior a casa, as famílias ficavam muito felizes e sentiam-se honradas se eles retirassem uma peça de fruta do seu presépio.

As imagens do Menino Jesus devem-se essencialmente aos pinta-santos ou faz-santos algarvios que surgiram no século XIX. Estes procuraram reproduzir as imagens dos imaginários, sobretudo o Menino Jesus e Jesus crucificado que, no Algarve, se chama Pai do Céu. A maioria das famílias algarvias, da zona do Barrocal e da Serra, no Sotavento, tinham em casa uma destas imagens. Era costume os pais oferecerem aos filhos, como prenda de casamento, a imagem do Menino Jesus e/ou do Pai do Céu, para ser colocada na casa de fora do novo lar. Na orla marítima, encontra-se a mesma tradição, sobretudo nos concelhos de Castro Marim e Tavira.

Estas imagens, de origem e características populares, criadas pelos pinta-santos, têm, habitualmente, cerca de 20 cm de altura e surgem colocadas em cima de uma penha de madeira.

 

Nota:

1. Informação retirada da obra “Natal no Algarve: Raízes Medievais” de autoria do Pe. José da Cunha Duarte.

 

 

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