romas

O dia de Reis é um dia de grande importância dentro da tradição cristã, sendo que em alguns países ainda se celebra neste dia a festa mais importante do Natal. Nesta data, 6 de Janeiro, assinalasse essencialmente a chegada dos três Reis magos a Belém, a oferta dos presentes ao Menino e a retirada por outro caminho.

Outrora, nas zonas marítimas e urbanas do Algarve, eram dadas nesta noite, a de Reis, as prendas de Natal. Como não havia o hábito de se darem brinquedos, as crianças recebiam uma laranja, castanhas ou uma libra de chocolate.

A ceia era semelhante à do Natal e da mesma faziam parte empanadilhas, filhós, bolinhós, fatias douradas com açúcar e canela.

As famílias mais abastadas comiam, nessa noite, sete frutas diferentes: pinhões, nozes, romãs, tangerinas, laranjas, figos e passas. Em algumas zonas era comum o costume das sete romãs, que se haviam guardado para a noite de Reis.

No Barrocal algarvio, assim como em várias zonas do país, era costume deitar três bagos de romã ao fogo, para que este se mantivesse aceso durante o ano; três bagos de romã na bolsa do dinheiro, para que ele não faltasse; três bagos de romã dentro da bolsa do pão ou no saco da farinha, para que não faltasse o pão ao longo do ano.

Na véspera de Reis, depois da ceia, realizava-se o chamado cortejo dos Reis Magos. Três homens trajados de Reis e montados em cavalos, enfeitados com flores de papel, acompanhados por um pequeno séquito, percorriam as ruas das aldeias ou cidades. Cantavam à porta de pessoas abastadas ou amigas. Distribuíam prendas às crianças , ao longo do percurso. Hoje praticamente desaparecido, este costume foi muito popular em Querença, Tavira e Olhão, nas primeiras décadas do século XX.

Um desses cantares, conhecido em toda a serra de Loulé, Tavira e São Brás de Alportel chamava-se “Quem são os três cavaleiros”:

 

 

1

Quem são os três cavaleiros,

Ai que fazem

Ai que fazem sombra no mari;

São os três do Oriente,

Ai que Jasus,

Ai que Jasus querem achari.

 

 

2

Não procuram por pousada,

Nem por quem

Nem por quem na possa dar;

Procuram por Deus Menino,

Ai onde é

Ai onde é que O vão achar?

 

 

3

Foram-n’O achari em Roma,

Ai revestido

Ai revestido num altari;

Missa nova quer dizer,

Ai missa nova

Ai missa nova quer cantari.

 

 

4

São João ajuda à missa,

Ai São Pedro

Ai São Pedro muda o missali;

Com dez mil almas à roda.

Ai todas elas

Ai todas elas p’ra comungari.

 

 

5

Sua mãe era pediri

Ai seu pai

Ai seu pai era rogari,

Filho meu salvai as almas

Ai levai-as,

Ai levai-as p’ra bom lugari.

 

 

6

Trazemos por devoção,

Ai não cantari

Ai não cantari mais qu’é dado,

Venha-nos dar a esmola

Ai em louvor

Ai em louvor de Deus Sagrado.

 

Este cantar foi recolhido de Filipa de Sousa Faísca, natural de Querença, Loulé, em 1998.

Com o passar do tempo foram surgindo as charolas, grupos principalmente constituídos por mulheres, que trajando de forma tradicional ou mais moderna, cantavam de porta em porta na noite de Reis. O chamado “canto velho” foi sendo substituído pelo “canto novo” bastante mais jocoso, virado mesmo para a chacota. Foram também introduzidos novos instrumentos como os de sopro, a pandeireta e as castanholas que tornavam o “canto novo” muito mais popular e alegre. 

Tipicamente associado a esta data está o bolo-rei, cujas primeiras notícias só surgem  século XIV. Esse bolo tinha uma moeda (um feijão ou uma ervilha) e era aclamado rei ou rainha quem a recebesse e depois oferecia o jantar. O bolo também se repartia. Introduzido em Portugal por Baltasar Rodrigues Castanheiro, sabe-se que por volta de 1870 era vendido na Cafetaria Nacional, em Lisboa.

E pronto aqui ficam alguns dados  do que era, e em alguns aspectos continua ser, a celebração do dia de Reis no Algarve.

 

 

Nota:

1. Informação retirada da obra “Natal no Algarve: Raízes Medievais” do Padre José da Cunha Duarte.

 

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