Mezinhas, a medicina popular

9 de Janeiro de 2013

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Olá caros visitantes do “Marafações de uma Louletana”.

Outrora, no tempo dos meus avós, o difícil acesso à chamada medicina e aos medicamentos fazia com que o povo recorresse frequentemente a “mezinhas” para curar os males do corpo e da alma. Nestas mezinhas eram utilizados diversos materiais, tais como plantas, minerais, materiais inorgânicos de origem animal e humana, entre outros. Estes materiais eram depois usados na confecção de chás, xaropes e cataplasmas que se acreditava terem um poder curativo. Para além disso, a medicina popular englobava também crenças e superstições, benzeduras e rezas que compunham o imaginário do povo.

Hoje trago-vos algumas das mezinhas que fazem parte da medicina popular do Algarve:

Para o aborto:

As mulheres usavam práticas clandestinas para provocar o aborto, de entre elas: pés de salsa (colocavam os pés de salsa dentro do órgão genital, até abortarem).

Para as anginas e outras inflamações da garganta:

Para estas maleitas usava-se: Água das malvas (Levar a ferver folhas de malva. Quando a água estiver morna, fazer gargarejos); “Alva de cão” (Actualmente em desuso, mas praticada antigamente sobretudo nas comunidades rurais, consistia em utilizar fezes de cão já secas, designadas popularmente por “alva de cão” para tratamento de anginas. Existem diversas formas de a confeccionar, entre as quais: desfazer um pouco de “alva de cão” coloca-lo sobre um pano que posteriormente é fechado nas extremidades formando uma espécie de bolsa. Posteriormente inserir a bolsa de pano num recipiente com água, e levar ao fogo, deixando ferver durante dez a quinze minutos. Bebe-se depois a água resultante da fervedura. Pode-se também optar por torrar um pouco de “alva de cão no forno. Passá-la por um coador e posteriormente polvilhar este preparado sobre um recipiente onde previamente se colocou mel.); Agua salgada (fazer gargarejos com água salgada).

Para o colesterol:

Para o colesterol aconselhava-se: Beringela (Colocar uma beringela cortada aos bocados num litro de água fria e deixar em repouso durante vinte e quatro horas. Deve-se beber várias vezes ao dia); Dente de alho (Com ajuda de um copo de água, engolir um alho pisado em jejum).

Para a constipação:

Para a constipação era recomendado: Chá de felugem da chaminé (Fazer uma bolsa em pano e colocar dentro felugem da chaminé. Depois colocar a bolsa num litro de água, levando ao lume até ferver); Café, aguardente e mel (Colocar numa chávena de café, um pouco de aguardente e um pouco de mel); Chá das brasas (Colocar numa tigela, duas ou três brasas e pôr sobre estas, uma ou duas colheres de sopa de açúcar amarelo e por fim, um pouco de água. Coar e beber).

Para a dor cabeça:

Para a dor de cabeça usava-se: Pombos (colocar pombos mortos abertos ao meio em cima da cabeça); Rodelas de batata e vinagre (Embeber rodelas de batata e vinagre e colocar sobre a testa, prendendo-as com uma ligadura ou com um lenço à volta da cabeça. Repete-se quantas vezes for necessário).

Dor de dentes:

Para a dor de dentes era utilizado: Aguardente (Reter durante algum tempo, um pouco de aguardente junto ao dente que dói. Repetir várias vezes, até aliviar a dor).

Ferida:

Para as feridas recomendava-se: Sanguessugas (colocar sanguessugas em cima da lesão para que estas suguem o sangue impuro); Saliva de cão (Deixar um cão lamber a ferida, porque a saliva de cão é boa para curar).

Papeira:

Quando alguém tinha papeira recomendava-se: Colar de alhos (colocar ao pescoço um colar feito com dentes de alho).

Picada de abelha:

Para a picada de abelha era usado: Urina (urinar para cima de uma zona onde haja terra e depois colocar essa terra com urina sobre a picada. Também se pode urinar directamente sobre a ferida).

“Sapos”:

Os “sapos” são uma espécie de afta na língua e quando alguém os tinha recomendava-se: Cal da parede (a pessoa afectada devia passar nove vezes a língua por uma parede caiada com cal).

Sarampo:

Quando alguém tinha sarampo devia usar: Vestes vermelhas (Antigamente cobriam-se as crianças com sarampo com roupas vermelhas e colocava-se no candeeiro de quarto e janelas um pano ou papel vermelho. Esta terapia completava-se bebendo a água de um copo onde previamente se tinha colocado três ou quatro papoilas e uma peça de ouro. Durante o tratamento o quarto devia estar fechado e resguardado para não entrar luz nem correntes de ar. A criança devia lá permanecer até estar curada).

Terçolho

Para os terçolhos era usado: aliança de ouro (benzer a pessoa com uma aliança de ouro sobre o terçolho dizendo: eu corto este terçolho com este anel de ouro); moscas mortas (matar moscas e colocar em cima do terçolho).

Tuberculose:

Para a tuberculose era recomendado: Caracóis (comer caracóis mouros crus); Mocho (beber sangue de mocho).

 

 

Estas são algumas das mezinhas mais populares. Futuramente dedicarei também um post às benzeduras e superstições. Até lá boas mezinhas :)

 

Nota:

1. Informação retirada da obra “Para grandes males, grandes remédios: A medicina popular no concelho de Faro”, que contou com a coordenação do Museu Municipal de Faro e com a investigação levada a cabo por Fernanda Zacarias.

 

 

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