Benzeduras e superstições

15 de Janeiro de 2013

***

Olá caros visitantes do “Marafações de Louletana”. 

Como o prometido é devido hoje a marafada traz-vos um post sobre benzeduras e superstições. As práticas medicinais populares, ou mezinhas, também abrangem, desde tempos longínquos, a invocação da cura pelo sobrenatural. O auxílio das entidades dividas era feito através de promessas a Deus e à Virgem Maria ou aos santos protectores das diversas doenças, de rezas e oferendas. Para solucionar os males recorria-se a vários artifícios, tais como benzeduras, defumadouros, esconjuros, formas gestuais, entre outros.

 

 

Rezas e benzeduras para o mau-olhado e quebranto:

 

 

“Virgem Mãe da Conceição, mãe do poderoso Deus, tira este olhado, este quebranto de (nome da pessoa), por amor de Deus.

Deus te fez, Deus te criou, Deus te pague quem mal te olhou. Em louvor de Deus e da Virgem Maria, um Pai Nosso e uma Ave Maria.” (Nesta altura a pessoa que está a benzer deve colocar o dedo mindinho dentro de uma vasilha onde se encontra azeite e deixar cair um pingo do azeite dentro de um copo com água. Se o pingo ficar sem se mexer, é sinal que a pessoa não está com quebranto. Caso contrário, se o pingo abrir e espalhar-se na água, então é sinal de que a pessoa está com quebranto.)

No final do ritual deve rezar-se um Pai Nosso e uma Ave Maria.

É importante que a pessoa que está ser benzida não cruze os braços ou as pernas durante a benzedura.

(Esta benzedura foi recolhida de Valéria Martins, Ilha da Culatra).

As rezas ou benzeduras para mau-olhado ou quebranto possuem diversas variantes, elegi a acima transcrita como mero exemplo, no entanto, é importante saber que existem várias versões do mesmo tipo de benzedura.

 

 

Benzedura do nervo torcido:

 

 

Materiais necessários para fazer esta benzedura: uma tesoura, um pente, um carro de linhas (colocam-se estes materiais sobre a zona afectada e simula-se que se está a coser com a agulha sobre a lesão), enquanto se diz a seguinte oração:

“Pessoa que está a benzer:  – Eu coso.

Pessoa lesada responde: Carne quebrada, nervo torto.

Pessoa que está a benzer; – É isso mesmo que eu cá coso, eu coso pela Virgem e a Virgem cose pelo osso. Melhor cose a Virgem que eu coso, se for carne quebrada torna a soldar, e nervo torto, vai ao teu lugar.)

Em louvor da Virgem Maria, pelas palavras mais santas que no mundo havia.

Padre Nossa, Ave Maria. (Rezar um Pai Nosso e uma Ave Maria).

Esta oração deve dizer-se nove vezes.

(Benzedura recolhida de João Martins, Conceição de Faro).

 

 

Estes são apenas dois exemplos de possíveis benzeduras, contudo existem muito mais, cada uma com o seu fim específico. Exemplo disso, são as benzeduras para a dor de barriga, para a constipação, a benzedura do aflito, etc.

 

 

Outro dos aspectos que caracteriza o imaginário popular algarvio são as crenças e superstições.

 

 

Superstições e crenças relacionadas com a gravidez, o parto e o nascimento:

 

 

Acreditava-se que uma mulher grávida não devia usar nada ao peito, senão a criança nasceria com o sinal do objecto que ela usara;

Uma mulher grávida não devia passar sob uma corda de estender roupa, pois ao faze-lo corria o risco da criança nascer com o cordão umbilical enrolado ao pescoço;

A mulher grávida devia satisfazer sempre os seus desejos porque senão a criança nascia de boca aberta e estaria sempre a babar-se;

Mulher grávida com azia faz nascer o bebé com muito cabelo.

 

 

Para se saber se vai ter filhos e qual o sexo dos bebés faz-se o seguinte ritual:

 

 

Pega-se numa agulha com uma linha enfiada, segura-se na extremidade da linha, movimenta-se a agulha três vezes, para cima e para baixo, ao lado da mão. Depois, ainda pegando na extremidade da linha, coloca-se a agulha por cima da palma da mão. Se a agulha andar em círculo é sinal que vai nascer uma menina, se andar para a frente e para trás é menino, se ficar parada, não vai ter nenhum filho.

 

Um dos mitos associados à determinação do sexo da criança que irá nascer, é o formato que a barriga toma. Assim, se a barriga adoptar um formato arredondado será uma menina, se a barriga se tornar pontiaguda será um menino.

 

 

Crenças e superstições relacionadas com animais:

 

 

A crença popular descreve alguns animais como causadores de doença e morte. Exemplos disso são o mocho e a coruja, que quando piavam nos telhados das casas, eram tidos com sinal de mau presságio, podendo anunciar a vinda de doenças ou da morte para as pessoas da casa.

A doença ou morte de um dos residentes da casa podia também ser pressagiada por um cão a uivar perto da casa. Acreditava-se que para o cão deixar de uivar se devia colocar um sapato do pé esquerdo com a sola voltada para cima.

 

 

Crenças e superstições relacionadas com a lua:

 

 

Segundo a crença popular, em caso de gravidez, devem ser contados nove períodos de lua e não os nove meses, desde à altura que a criança é concebida até ao seu nascimento. Outro dos mitos que relacionam a gravidez e a lua diz respeito ao sexo da criança, assim sendo, a lua cheia é propicia ao nascimento de uma menina e a lua nova ao nascimento de um menino.

O fortalecimento e o crescimento do cabelo também são influenciados pelo período lunar. Assim, cortar o cabelo no quarto crescente faz com que este cresça mais depressa, se o fizer durante a lua cheia crescerá mais forte e se o corte for feito durante o quarto minguante o cabelo crescerá mais lentamente e com menos volume.

 

 

Crenças e superstições relacionadas com as estrelas:

 

 

Segundo a crença popular, apontar para as estrelas provoca o aparecimento de verrugas nos dedos.

 

 

E aqui têm, caríssimos visitantes, mais um cheirinho daquilo que era a medicina popular no Algarve, nomeadamente no que diz respeito ao recurso ao sobrenatural e às crenças que povoavam o imaginário dos nossos antepassados.

Falta apenas escrever um pouquinho sobre os amuletos usados para afastar o azar ou atrair a sorte, proteger quem os usava, etc. Talvez numa próxima ocasião.

 

 

Nota:

1. Informação retirada da obra “Para grandes males, grandes remédios: A medicina popular no concelho de Faro”, que contou com a coordenação do Museu Municipal de Faro e com a investigação levada a cabo por Fernanda Zacarias.

 

1 Comment

  • Ana Rita Oliveira diz:

    Boa Tarde, a minha mãe benzeu-me e as gotas formaram luas. Gostaria de saber o que significa isso? Pois foi a primeira vez que aconteceu. Gostaria que receber uma resposta. Obrigada

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *