A matança do porco

28 de Novembro de 2011


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Bom dia caros visitantes do “Marafações de uma Louletana”.

Aproxima-se o Natal e com ele a tradicional matança do porco. Esta prática ocorre sobretudo nos meses de Dezembro e Janeiro, altura em que o porco está suficientemente gordo para a matança e o frio cria as condições propícias para este fim. A matança do porco abrange todo um conjunto de rituais e é uma tradição ancestral entre o povo português. Mais do que uma tradição, esta prática, para muitos bárbara, continua a ser uma forma de subsistência para algumas famílias. Em determinados casos a matança à moda antiga justificasse igualmente pela distância em relação ao matadouro mais próximo.

O dia em que ocorre a matança do porco é singular. Os preparativos iniciam-se logo cedo: Juntam-se um grupo de homens e mulheres, cada qual com sua tarefa. Os homens antes de se entregarem às suas tarefas bebem um copo de aguardente de medronho para “aquecer” e “matar o bicho” e comem figos secos. De entre estes homens há um que é considerado o “bom matador” e é esse que, munido de uma grande faca, disfere um golpe fatal no animal enquanto os outros imobilizam o mesmo. Depois que é disferido o golpe fatal o sangue começa a jorrar da goela do animal e neste momento duas ou três mulheres devem segurar num alguidar e recolher nele o referido sangue. Ao sangue ainda quente juntasse vinagre para evitar que o mesmo coagule e possa ser posteriormente cozinhado.

Posto isto, e com o porco já morto, este é colocado sobre uma superfície determinada para esse fim e é chamuscado, ou seja, é retirado o pelo. Hoje em dia é vulgar o uso do maçarico para chamuscar o porco, no entanto, outrora, esta tarefa era realizada com o recurso aos tojos, planta existente na flora algarvia, que a arder permitiam fazer o chamusco. Depois de devidamente chamuscado o animal, os homens raspam com facas a pele do animal e os mais experientes arrancam-lhe as pontas das unhas. 

Posteriormente, com um golpe profundo e longitudinal “abre-se” o porco, afasta-se o toucinho, retira-se as miudezas, a começar pelas tripas que prontamente são colocadas num alguidar para serem “arranjadas” e inicia-se a desmancha. Arranjar as tripas, ou seja, prepara-las para mais tarde fazer os enchidos, é algo complexo e uma tarefa que compete às mulheres. Quando procedem à desmancha, os homens preocupam-se em não desperdiçar nada e separar cada parte do porco segundo a sua finalidade: presuntos, costeletas, lombos e lombinhos. Parte desta carne, que inclua um pouco mais de gordura, é depois migada em pedaços pequenos e é lhe adicionada calda de pimentão para futuramente se fazerem os enchidos, nomeadamente chouriças e paios, que ficam prontos a consumir depois de passarem pelo fumeiro . O toucinho, a banha (gordura derretida) e os torresmos representam também alimentos importantes para a dieta da família ao longo do ano.

No dia da matança, ao almoço, os intervenientes convivem, comem o sangue cozido e temperado e bebem vinho novo.

Na parte da tarde os homens continuam a trabalhar a carne do porco e as mulheres deslocam-se ao curso de água mais próximo, se o houver, e lavam as tripas.

A matança do porco significa um dia de muito trabalho mas também de muito convívio.

A título de curiosidade aqui ficam algumas particularidades acerca da matança do porco:

1. As mulheres e as crianças não deviam assistir à matança pois dizia-se que influenciavam o matador e que o porco podia “encolher o sangue”;

2. As mulheres menstruadas não mexiam na carne porque podiam estraga-la. Ainda hoje se considera que só o facto de uma mulher menstruada olhar para a carne do porco depois de morto pode estragar essa carne.

 

1 Comment

  • Um dia de grande convívio que eu aprecio. Conheço um ex colega que mata o porco sem ajuda. Fala com o animal, atrai-o com uma guloseima para fora do curral, depois é só dar o golpe fatal e ele tomba sem rugir ou estrebuchar. Não é curiosidade mas verdade.
    Bj

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