A aguardente de medronho

17 de Janeiro de 2013

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Olá caros visitantes do “Marafações de uma Louletana”.

Já aqui se escreveu sobre o medronheiro, o medronho e a aguardente produzida a partir deste fruto, nomeadamente num post datado de 1 de Julho de 2011, no entanto, hoje decidi dedicar um outro post exclusivamente a essa bebida tão algarvia: a aguardente de medronho. Irei praticamente cingir-me aquele que era o fabrico tradicional da aguardente de medronho e a um artigo que li no periódico “A Ponte”, boletim informativo da Freguesia da Tôr, da autoria de Sérgio Guerreiro. Este artigo revela-se bastante interessante pois relata experiências vividas pelo seu autor e revela bastante proximidade com o tema. 

A aguardente de medronho é uma bebida destilada produzida a partir de frutos fermentados da espécie Arbutus unedo L (medronheiro). Esta bebida é produzida, um pouco por toda a serra algarvia, sobretudo na Serra do Caldeirão, em pequena escala e de uma forma artesanal, podendo o produto final possuir características variáveis em termos de qualidade. O início da produção deste destilado no Algarve, não é conhecido, mas estima-se que seja uma prática deixada pelos Árabes que chegaram ao Baixo Alentejo e Algarve entre 712/713. As referências escritas relativas à produção de aguardente de medronho praticamente só surgem com as primeiras monografias de várias localidades algarvias, escritas nos princípios do século XX, dando uma indicação da importância que esta actividade tinha na região.

Peças essenciais na fabricação da aguardente de medronho eram o próprio destilador, o alambique e a caldeira. A caldeira é um recipiente metálico para aquecer líquidos e produzir vapor. O alambique é um aparelho próprio para fazer a destilação. Outros acessórios presentes neste processo são a cabeça, colocada junto à caldeira, a serpentina, colocada de lado, um depósito cheio de água que servia para refrescar o vapor que se transformava em aguardente e por baixo da caldeira, o local de aquecimento.

 

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O medronho era colhido manualmente nos meses de Setembro, Outubro e Novembro, apenas os frutos maduros (vermelhos e amarelos), por pessoas que precisavam de melhorar de vida ou pelos próprios proprietários. Posteriormente, o medronho era transportado para uns depósitos que se encontravam perto da caldeira. O medronho ficava algumas semanas dentro dos depósitos e era mexido duas a três vezes por semana com uma pá de madeira fabricada de propósito para esse fim. Existem diversos factores que podem influenciar o tempo de fermentação dos frutos, tais como a temperatura ambiente, a humidade, a disponibilidade de oxigénio e o teor de açúcares. A forma de fermentação varia de produtor para produtor, dependendo de factores tais como a natureza dos recipientes utilizados (plástico, cerâmica, inox ou madeira). Quando pronto, o medronho era tirado dos depósitos com um balde para serem depositados na caldeira que não ficava cheia, para que houvesse espaço para o vapor ser acumulado e ter força para seguir o caminho da serpentina e transformar o vapor em aguardente. Depois de ferver três vezes, a cabeça era colocada e a junta era protegida com barro. Mas o segredo da fabricação era o controlo do fogo. Só o próprio destilador conhecia a primeira aguardente que saia com 27.º. A última tinha apenas 18.º. O equilíbrio era feito dentro de um cântaro para a graduação ficar com 22.º. No fim, o resto que se chama o frouxo era recuperado para juntar à próxima caldeirada. O volume da caldeira era de 12 arrobas, cujo rendimento em líquido, era de 20 a 25 litros de aguardente.

Actualmente as caldeiras e alambiques estão a desaparecer, sobretudo pela diminuição dos medronheiros em resultado da excessiva poluição e dos fogos sucessivos. A apanha e produção tradicional têm sofrido um grande decréscimo, sendo que as pequenas estruturas de produção têm vindo a ser muitas vezes abandonadas ou mesmo desmanteladas, e os terrenos serranos muitas vezes votados ao abandono, o que propicia o aumento do risco de novos incêndios por deixarem de ser limpos e cuidados.

 

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Para além de licor apreciado, a aguardente era recomendada pelos nossos antepassados para a dor de dentes, para fazer a digestão acompanhada por um bom café, para a dor de garganta, para fazer despertar depois de uma noite sem dormir…

Assim sendo, lamentavelmente, estamos não só a perder aquela que pode ser considerada uma bebida tipicamente algarvia, como também parte do património cultural algarvio.

 

 

Nota:

1. Informação retirada do artigo “A famosa aguardente de medronho” da autoria de Sérgio Guerreiro in “A Ponte”, n.º28 de Janeiro/Fevereiro de 2013; e também da tese de mestrado “Controlo e análise do processo de produção de aguardente de medronho da Serra do Caldeirão” de David Miguel Cabrita do Espírito Santo. 

 

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